terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Oito regrinhas dedicadas ao aumento das possibilidades de sobrevivência e sucesso de brasileiros em terras de França

1. Dê um jeito de se comunicar em francês: se dispõe de conhecimentos desse idioma, use-os; se não, corra atrás, e tente o mais rápido possível passar a falar em francês na sala, na academia (a universitária, não a da malhação), na padaria, em todo lugar. NÃO acredite naqueles comerciais brasileiros de escolas de língua inglesa que apregoam que, falando inglês, você se dá bem em qualquer lugar do mundo: em qualquer lugar, menos na França.

2. Ainda no capítulo “uso da língua francesa”, não economize no uso das quatro palavrinhas/expressões obrigatórias (e eu não vou traduzir – falei que era pra você começar a se virar): merci, pardon, bonjour/bonsoir/ bonne nuit e s’il vous plaît. Ai de você se, numa ocasião de expectativa de uso das palavrinhas, você falhar!...

3. Ao ser convidado para jantares, almoços ou mesmo reuniões sociais em lares franceses, NÃO esqueça as flores para a dona da casa, ou mesmo para o dono da casa. A garrafa de vinho é bem-vinda em algumas ocasiões, mas cuidado: franceses conhecem vinho antes de começarem a falar, então não se meta a cavalo do cão nessa área se você é analfabeto ou semi.

4. Nas ocasiões sociais acima mencionadas, treine com antecedência pelo menos DOIS dos seguintes objetos de conversação social: A) “Para onde iremos / onde fomos na ultima ocasião de férias e feriados”; franceses ADORAM passear! Se você, pobre coitado estudante-bolsista ficou preso em casa diante do computador no último feriado, pelo menos faça perguntas interessadas acerca da Tailândia, Croácia e outros Marrocos, mas nem ouse se vangloriar de ter ficado plantado em casa num feriado – pobre coitado de você!. B) O tempo, o clima (frio ou quente) a méteo (tópico relacionado ao anterior). C) Gastronomia e enofilia, mas cuidado aqui, já avisei! Caso o assunto surja, e você seja daqueles que apenas preparam um ovo cozido (e erram o ponto) e põem pedras de gelo no vinho rosé (arghh!!!), faça perguntas interessadas – mas não completamente idiotas – sobre preparações, denominações de vinhos, etc.: franceses adoram ser professores e ensinar coisas, notadamente a pobres bárbaros não-franceses. D) Lugares exóticos do Brasil, notadamente a região amazônica, o pantanal e as cataratas de Iguaçu (mas aqui, de novo, tenha cuidado: eles sorrateiramente varrem o Google, qualquer informação em falso e eles denunciam na hora).

5. Nas mesmas ocasiões sociais, EVITE os seguintes motes de conversação: A) o quanto Paulo Coelho é péssimo escritor: deixe sua soberba literária arquivada no Brasil, pois Paulo Coelho na França está mais ou menos no nível de Hemingway, inclusive é Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural e Literário ou algo assim, honraria concedida pelo então ministro da cultura Jack Laing (ele próprio leitor apaixonado de Paulo Coelho). B) Nessa mesma linha, evite considerações acerca do quanto Lula é/foi um presidente fraquinho: Lula, aqui, é o cara! Melhor tirar partido, “ser brasileiro que nem Lula”. C) Piadas sexistas em relação às mulheres, e piadas politicamente incorretas em relação aos negros (ih!!), aos judeus (ih!!!!!!!) e aos árabes em geral e muçulmanos em particular (ihhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!). Aproveite e evite falar sobre imigrantes e minorias étnicas em geral. Terreno minado. D) Política partidária francesa: os franceses andam de saco cheio com a cena politica, abordar esse assunto estraga o clima. E) Do que morreu o vizinho, o professor Fulano, o sogro do seu anfitrião, etc.: franceses NÃO vivem divulgando causas-mortis, eles as tratam como assunto privado; portanto, fique na sua, satisfaça-se em saber que a criatura morreu e pronto.

6. Na academia (acadêmica, universitária), não espere elogios rasgados a NADA e nem a NINGUÉM (naturalmente você e seu magnífico trabalho estão incluídos na regra). Pelo contrário, haverá críticas, e feitas de uma forma direta e dura (sem os vaselinantes “veja bem” ou “está bom, agora...”), o que dará em você brasileiro(a) a impressão que o interlocutor francês o odeia inapelavelmente. Não, ele não o odeia, pelo menos não necessariamente: trata-se do jeito francês de lidar criticamente com o mundo das idéias.

7. As mulheres francesas têm o desconcertante (para brasileiros) e frequente comportamento que consiste em deixar à vista suas calcinhas, notadamente em seus deslocamentos em bicicleta (e olha que agora a Mairie de Paris disponibilizou bicicletas de aluguel nos arrondissements centrais da cidade – viva!) e quando se postam a flanar, sentadinhas despreocupadamente, no gramado do Champs de Mars, diante da Torre Eiffel, na área em frente ao Beaubourg (o Centre Georges Pompidou, no Marais), e nos gramados dos Jardins de Luxembourg, Vincennes, Versailles, etc. Esse antropologicamente interessante comportamento recrudesce, naturalmente, no verão, quando as saias encurtam e as meias se vão. Mas atenção: NÃO É PARA FICAR OLHANDO PARA AS CALCINHAS DAS DAMAS e DEMOISELLES! Tal comportamento costuma ser mal-recebido, não insista. Aprenda a olhar com a visão periférica, olhar sem olhar, entende? (Sim, porque dizer para não olhar, eu nem vou tentar aqui!).

8. Franceses, notadamente os parisienses, são aparentemente (para nosso olho brasileiro) duros, mas se deixam cativar por nosotros com estonteante facilidade. Aliás, esse é um trunfo cultural que brasileiro nenhum deveria desprezar: rapidinho nós conquistamos os caras/as caras. Como conheço a nossa raça e sei que muito dos nossos agrados e chamegos são pura falsidade, apelo para o senso de humanidade e responsabilidade cívica dos patrícios no sentido de evitar cativar franceses e depois abandoná-los sem a menor consideração, como os franceses fazem com seus cães e gatos nas férias de verão (sim, porque não vai ser por causa de um cãzinho ou gatinho que as férias serão comprometidas, JAMAIS DE LA VIE!). A raposa do Pequeno Príncipe, daquele livro francês que as misses brasileiras adoram, já dizia que “somos responsáveis pelas pessoas que cativamos”. Então zelemos pelo nosso renome afetivo-emocional e tenhamos atenção pelo nosso rol de franceses de estimação, d’accord? Agora, na era dos e-mails e sites de relacionamento, nenhuma desculpa é aceitável.

É isso, conterrâneos. Bonne chance, bon courage!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Carta-aberta ao senador Jarbas Vasconcelos

Senador,

Eu, e muitos de minha geração, depositamos nosso primeiro voto para deputado no senhor e em companheiros seus do velho MDB, como Marcus Cunha e Cristina Tavares. Meus familiares na época vociferavam contra essa “turma”, bando de comunistas, o pior deles sendo o “tal Jarbas”, que inclusive havia “comprovadamente” batido no próprio pai, e por aí ia. Nessa mesma época me enchi de orgulho e alegria, “sem ódio e sem medo” gastando a gasolina de minha moto na campanha de Marcos Freire para senador, bons tempos aqueles! Mas o máximo, o clímax, e talvez a despedida desse tempo de ingenuidade e alegria, foi o retorno de Doutor Arraes a Recife; pelas ruas de Casa Amarela e Caixa d´Água, Santo Amaro, Brasilia Teimosa, Encruzilhada e Afogados, bradávamos triunfantes que ele iria voltar pela porta pela qual havia saído, naquele fatídico fusquinha, tão espremido no banco trazeiro, tão pouco espaço para tamanha personagem da história de Pernambuco e do Brasil. As voltas que o mundo dá: em pleno ano da graça de 2010, encontro em grupamento de pesquisa parisiense um ex-piloto de aviação que, sabendo de minha origem brasileira, me pergunta se eu havia conhecido um politico brasileiro de nome Miguel Arraes, que havia sido exilado político na Argélia e depois em Paris. Ora se conheço!!! – respondi. Pois bem, continuou ele entre divertido e triunfante, o senhor sabe quem foi o piloto francês que pilotou o avião que o conduziu, junto com familiares, em sua viagem de retorno da França ao Brasil? (!!!) O senhor?!? Me dê cá um abraço! (tratava-se do ex-piloto de aviação comercial Michel Jouanneaux).

Pois é, as voltas que o mundo dá: hoje, senador, já não voto mais no senhor, hoje sou eleitor de Eduardo Campos, a quem darei meu voto pela segunda vez no domingo três de outubro que já apita no horizonte. Voto em Eduardo Campos, diga-se, não porque ele me cooptou ou comprou meu voto: nunca pedi a ele nada além de compromisso pelo nosso estado, dele nunca recebi nada além da satisfação de acompanhar à distância a qualidade de seu governo. Quis as voltas e redemoinhos da vida que eu deixasse Pernambuco por outro estado nordestino, mas para o próximo três de outubro eu e a família vamos pra estrada, de volta à terra, para dar nosso voto e nosso endosso à continuidade do trabalho de Eduardo.

Ao que parece, o senhor perderá essa eleição. Quero contudo lhe dizer que apesar de todo o chão que batemos até hoje, do MDB ao PMDB, o senhor, como personagem da política, e eu como eleitor, e apesar do fato de que hoje nos encontramos em campos diversos do embate político, tenho pelo senhor consideração e respeito. Em nenhum momento me arrependo daquele meu primeiro voto no senhor, porque tinha e tenho a convicção que dei meu voto a um homem corajoso, lutador de um bom combate. Na sequência dos tempos heróicos da “abertura lenta e gradual”, da anistia e da redemocratização, nunca deixei de registrar sua pernambucanidade, sua gana em defesa de nosso estado, desde o apreço pela cozinha da terra até as brigas de cachorro grande em Brasília. Nesse contexto, o dia quatro de outubro, senador, tem uma significação importante na construção de sua biografia de político pernambucano: apelo ao senhor para que, a partir desse dia, reoriente seu esforço e sua gana em prol de nosso estado. Não lhe peço adesão ao governo de Eduardo porque isso seria impossível e não-cabível por uma série de razões, a primeira das quais o senhor ser Jarbas Vasconcelos, todas as demais sendo pouco relevantes diante dessa. O que lhe peço é grandeza. Nobreza. Pernambucanidade. Não resvale para o vão do ressentimento, venha ocupar o lugar que de direito lhe cabe na história desse estado, e de quebra na minha pequena e humilde história de eleitor pernambucano.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Em honra a Ossip e Nadejda Mandelstam

Tendo-me privado dos mares e do élan das asas / Soterrando meus pés em terra violenta/ O que obtiveram de mim? /Lamentável plano! /Vocês não conseguiram me privar desses lábios que murmuram. (Mandelstam)

O poeta russo Ossip Mandelstam morreu de frio e de fome em 27 de dezembro de 1938, aos 46 anos de idade, em trânsito de um campo de concentração para outro, na região de Vladivostok, antiga URSS. Foi preso pelo crime de “composição e difusão de obras-contra-revolucionárias”, entre as quais o poema abaixo, publicado em 1934 e dedicado corajosamente ao camarada Stalin, num tempo em que muitos desapareciam, eram perseguidos, calados à força, violentados até a morte por muito menos do que se segue:

"Vivemos sem sentir..."
Vivemos sem sentir a Rússia embaixo,
não se ouvem nossas vozes a dez passos.

Mas onde houver meia conversa – sempre
se há de lembrar o montanhês do Kremlin.

Seus grossos dedos são vermes obesos;
e as palavras – precisas como pesos.

Sorri – largos bigodes de barata;
e as longas botas brilham engraxadas.

Rodeiam-no cascudos mandachuvas;
seu jogo: os meio-homens que subjuga.

Um assobia, um rosna, um outro mia,
só ele é quem açoita, quem atiça.

E prega-lhes decretos-ferraduras
na testa ou no olho, na virilha ou nuca.

Degusta execuções como quem prova
uma framboesa, o osseta de amplo tórax.
(“Stalin”, Mandelstam, 1934; tradução de Boris Schnaiderman a partir do russo).

Mas antes que os tempos difíceis da treva stalinista tivessem caído sobre a inteligência soviética de então, as coisas haviam sido luminosas, o espírito de 1917 parecia prometer tempos que então se anunciavam, no dizer de N.Berdiaeff, como a “idade de prata” da cultura russa. Ossip e Nadejda recebiam para o chá poetas como Maiakovski e Khlebnikov, e mesmo jovens teóricos do fazer literário, como um certo Lev Vygotski, descrito por Nadejda como “um tanto formal, como de hábito nessa gente das universidades, mas boa gente...” (Nadejda Mandelstam, Contre tout espoir: souvenirs. Paris, Galimard, 1970). Ossip Mendesltam, nessa época e segundo a descrição de seu amigo Maiakovski, “ flutuava pelas ruas com pequenos ramalhetes de muguet na lapela, distribuindo fulgores de consciência no ritmo sincopado do passar dos dias, um poeta-criança”, numa miséria material digna e nobre, e com um bom-humor que se voltava até para suas desditas, e que perdurou mesmo quando chegaram “(...) tempos apocalípticos em que a infelicidade e o sofrimento seguiam nossas pegadas” (Mandelstam). Quandos esses tempos se instalaram de vez e Ossip Mandelstam foi levado preso, e todos os seus livros confiscados e/ou destruídos, Nadejda Mandelstam dedicou-se à tarefa solitária, heróica e amorosa de memorizar todos os seus poemas, os quais reescreveu e republicou anos depois da morte do companheiro. Pelos seus-dela-lábios de Nadejda, Ossip mostrou ao establishment ditatorial stalinista que afinal um tão temível aparato de canhões-botas-fuzis-poder “(...) não conseguiram me privar desses lábios que murmuram”. “Se eles matam os poetas, é porque respeitam a poesia”, escreveu profeticamente Mandelstam. Sim, porque se os poetas são passíveis da anulação da morte, a Poesia, esta, se espraia pelo grande simpósio universal da caminhada humana, e não se submete mais ao esforço vão dos que perseguem os rastros palpáveis do falado, do escrito, do esculpido, do sonorizado, de tudo enfim que se concretiza como produto da Arte, uma dentre tantas alternativas do Intangível. Afinal, em paráfrase a outro poeta (um brasileiro, Mário Quintana), os fuzis e botas passarão, enquanto que a poesia, passarinho!




sábado, 23 de janeiro de 2010

Minha França

(... eu, personagem de mim mesmo _ 1)

Éramos entre oito e dez garotos ruidosos, naquele distante primeiro ano ginasial de um colégio masculino; a nos unir, como um atributo tribal, a condição de “time de francês”, pronto, naquela quadra esportiva mambembe de um estacionamento interno com piso de paralelepípedos, para um embate futebolístico de 30 minutos contra o “time de inglês”. O colégio estabelecia como norma para os recém-entrados no primeiro ano a escolha do idioma que seria estudado pelos quatro anos do ciclo ginasial de estudos, o que gerava um ritual de fila de hospital público na manhã-madrugada do dia marcado para o comparecimento dos pais: os que chegassem primeiro tinham o direito de escolher, os que chegassem depois apenas pegavam as vagas restantes, e as primeiras escolhas recaíam majoritariamente sobre a língua inglesa, a língua francesa já em plena derrocada e desprestígio num mundo fortemente americanófilo. Eu, do alto de minha soberba adolescente (e bota soberba nisso, só que iria piorar), avisei à minha mãe que nem se estressasse em acordar de madrugada e ir disputar lugar na fila dos optantes, porque não havia perigo nesse mundo de minha austera pessoa gastar suas energias mentais aprendendo como língua estrangeira os bramidos bárbaros da língua inglesa: eu iria estudar francês, e ponto final (duas décadas depois não só estudei como tornei-me professor de inglês, numa clara demonstração de que língua não tem osso, notadamente língua adolescente peremptória). Minha mãe tinha como política não desperdiçar energia psíquica com embates menores, pois o inimigo era duro e extenuante, e assim reservar o melhor de si para os combates cruciais (algumas vezes coadjuvados por sua temível chinela voadora, que me atingia certeiramente mesmo quando eu tentava esc apar em alta velocidade). E após dois segundos de avaliação balançou a cabeça meio indiferente, num ar de “sua alma, sua palma”. E assim se fez, passei a fazer parte da banda “gauche” da turma, os “meninos do francês”, como nos apelidavam nossos “chefes de disciplina”, bedéis incumbidos de nos dar limites. Os “meninos do inglês” eram claramente de outra subcultura: pragmáticos, sistematicamente mais belos e bem-recebidos entre as meninas, praticamente todos, mais adiante, optantes por carreiras acadêmico-profissionais de prestígio: engenharias, medicina, direito; os “meninos do francês”, por sua vez, eram apegados à literatura e à filosofia, fundavam e dirigiam jornais escolares como o “Zeros à Esquerda”, e mais tarde optaram majoritariamente por carreiras de baixa remuneração e discutível prestígio social, como Letras, Filosofia, História, Psicologia, por aí. Na quadra de futebol das pausas do recreio confrontávamos nossas diferentes visões-de-mundo, olho no olho, pé na canela, jogos de vida ou morte dos quais saíamos semi-destruídos para a segunda parte da manhã de aulas.
As aulas de francês eram dadas no colégio por professores da Aliança Francesa de Recife, e de fato eram aulas de “langue et civilisation française”, com forte ênfase na parte do marketing do aporte civilizatório trazido pelos franceses para este mundo, desde Astérix. Aprendemos sobre vinhos, sobre queijos (“pode-se comer um tipo de queijo diferente a cada dia durante um ano!”), sobre a revolução francesa (construímos nossa própria guilhotina pedagógica e executamos alguns ratos de laboratório acusados de girondinos traidores), líamos Tintin e Astérix em exemplares originais sebentos emprestados pela Aliança, acompanhamos em tempo real (da época), mesmo sem entender grande coisa, os acontecimentos de Maio de 68 em Paris. Mais tarde, graças à inspiração de uma professora cuja competência no domínio da língua francesa se equiparava à pujança e beleza de suas (dela) pernas, começamos a nos interessar pela lingerie francesa, mas esse é um hiperlink no qual não clicaremos agora.
O fato é que, para aquele grupinho de quinze fedelhos, a experiência linguístico-cultural de imersão na língua e civilização francesas durante os quatro anos de ginásio e mais três de científico constituiu um pequeno ethos cultural que nos especificou e nos uniu. Anos mais tarde, os quatro anos de vida na França, para o doutorado na Sorbonne, trouxeram para o imaginário o arremate do cotidiano, com suas agruras e seus prazeres. Foi aí que, acho, a França definitivamente tornou-se Minha França. Um espaço de referências e significações que não se confunde com meu país, pois sou indelevelmente nordestino-brasileiro, é esse o meu eixo, sou um devorador de carne de bode. Mas ao mesmo tempo um espaço que não pode ser assimilado à condição genérica de “estrangeiro”, porque a França definitivamente não é parte do estrangeiro para mim. Trata-se portanto de Minha França, “douce France, cher pays de mon enfance”, lugar que me alimenta, me reconstitui, me inspira e me desafia, para onde retorno daqui a pouco para mais uma temporada de convívio, Dieu merci!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Adão e Eva

Em honra a Mikhail Bakhtin (1895-1975)

Houve um tempo durante o qual as divindades tudo podiam ver e tudo podiam saber: eram omniscientes e dispunham de omnivisão. Além disso, as divindades possuíam o dom privilegiado da linguagem monossêmica, em que cada palavra e cada frase davam conta com perfeição impecável da realidade do mundo das coisas e das idéias: tal linguagem estava à prova do engodo, do engano, do deslize, da alusão. Tais dotes conferiam às divindades de então completa autonomia, mas passaram a torná-las perigosamente autosuficientes, isoladas, ensimesmadas e tristes. Ao constatar tal situação, o Criador viu que sua obra mais bela corria riscos, e tomou uma medida radical: tirou (alguns dizem que Ele baniu) as divindades do paraíso da monologia. As divindades, doravante, estariam condenadas à restrição de visão e conhecimento, devendo todo e qualquer excedente de visão ser buscado no contato com outra divindade, colaborativamente. Terminou o tempo de omnivisão, e se instalou o tempo da construção sem fim em regime de dialogia. Cada divindade, doravante, teria de demandar e conseguir de outra divindade o excedente de visão que lhe permitisse se aproximar da condição anterior perdida, sem nunca mais reconquistá-la. Para culminar, o Criador retirou destas suas criaturas o dom da linguagem monossêmica, e instaurou o regime da polissemia, da metáfora, do significado flutuante que tornava cada esforço de comunicação uma empreitada cheia de surpresas, riscos e distorsões. Nesse novo regime, mesmo o silêncio que outrora era o contraponto da fala monossêmica total, agora assumia a possibilidade de também falar, porque mesmo ele, o silêncio, não se fixava a uma única possibilidade como não-sentido, como ausência de fala: o silêncio doravante flutuava, ele também, em possibilidades cujo resgate dependia de quem silenciava, pra quem silenciava, por que silenciava. Nesse novo regime, o criador verificou que suas criaturas não significavam nada mais sozinhas, a não ser potência. O Criador ficou feliz com sua correção de rumo, e decidiu que essas novas divindades, agora condenadas a existir em dialogia, não mais seriam divindades, e sim humanos. Porque o Criador intuiu que havia privado suas divindades do omnipoder que as tornava divindades, e com isso as havia extinto, mas havia trazido para a criação criaturas novas, frágeis e sofridas, condenadas a fazer sentido do mundo com o suor diuturno do trabalho conjunto. Tais criaturas, expulsas do paraíso monológico omnipotente, se viram em situação de desespero e angústia, de desamparo e insuficiência. Mas se deram conta que, em contrapartida, se abria para elas um devir de possibilidades que antes não estava posto, apesar dos riscos que comportava. E como humanos, sentiram que tinham herdado em potência a divindade, apesar de que agora tal divindade não era privilégio de nenhum humano per se, e sim possibilidade em aberto de mais-de-um. O Criador fiou feliz com seu movimento, e chamou essa nova criatura, agora humana, de Adão, e o Alter, de quem doravante Adão dependeria, com quem doravante caminharia, para quem doravante falaria e silenciaria e a quem escutaria, ele chamou de Eva. Juntos, Adão e Eva deram assim início à epopéia da aventura humana.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O ladrão de galinhas e Mahatma Gandhi

Isso devia ser um comentário a post de minha filha, intitulado “De mentirinha”, postado em seu blog “De que são feitas as meninas” (http://dequesaofeitas.blogspot.com/ ). Minha incorrigível prolixidade gerou um comentário desmesurado, que não pode ir atulhar o blog dela: eu que me responsabilize pelas minhas besteiras! Então, aí vão.
A discussão sobre o que é certo, o que é direito, o que é jeitinho escrotinho ou escrotão, comporta um patamar fácil, outro médio, e outro difícil. No patamar fácil, decidimos acerca de roubar ou não a galinha gorda e vistosa do vizinho. Foi ele quem comprou a franguinha, criou, cuidou, a galinha é dele, o mérito é dele, não é direito roubar-lhe a galinha, pronto. Fácil. No patamar seguinte, trata-se agora do vizinho que gentilmente quer presentear-lhe com sua galinha gorda, a você, síndico do condomínio onde o vizinho mora, e onde tem alguns problemas com os demais condôminos. Aí as coisas são mais sutis: dar presentes não é errado. Recusar receber presentes é estranho, às vezes grosseiro. Seduzir, adular com presentes em proveito próprio é, digamos, inadequado. Receber presentes de quem tem interesses pessoais que você vai arbitrar é perigoso. Errado, errado mesmo, não há nada aqui a registrar, mas o perigo ronda... Esse é o nível intermediário. No nível difícil, a questão é a seguinte: seu filho passa fome, a galinha do vizinho está gorda e dará uma bela canja. O princípio 1, zelar pela vida dos filhos, tem seu papel e espaço; o princípio 2, respeitar a propriedade alheia, aquele discutido acima, também é cristalino e pertinente, merece respeito. O problema aqui é que os princípios 1 e 2 brigam entre si na cabeça de alguém: um princípio pertinente deverá ser sacrificado em nome de outro princípio pertinente. Aqui nesse nível, moram movimentos históricos: o princípio da desobediência civil pregado por Gandhi, a Inconfidência Mineira; os franceses gostam de dizer que não se faz uma boa omelette sem quebrar ovos, e usaram desbragadamente a guilhotina como batedeira de ovos durante a segunda fase da Revolução Francesa. É claro que a distância entre um ladrão de galinhas do nível 1 e um Mahatma Gandhi do nível 3 é enorme, mas o problema é que ambos podem pertinentemente parar cadeia; o problema é que ambos cometeram delitos.
O que é certo e o que é errado é uma questão de consciência pessoal, e de combinações sociais na forma de leis (jurídicas, religiosas, do condomínio, do partido político, do clube de futebol). O que é certo e o que é errado muitas vezes demanda grande esforço de reflexão, e é nisso que reside uma das coisas mais fantásticas da aventura de ser humano. A quase pior coisa que pode ocorrer é a anomia, a falta de um sistema de regras que ofereça alguma base para que alguém funcione nessa existência. Cometendo erros aqui e ali, mesmo deslizes, mas tendo sua referência, seu guia. Caetano e a Tropicália que me perdoem, mas proibir não só não é proibido, como é necessário. A pior coisa é o cinismo. O cinismo é uma espécie de disenteria do caráter, se me permitem a metáfora de gosto duvidoso. Ser cínico é debochar das regras, é servir-se delas, por cima e para além de qualquer preocupação com a moral e a ética. Uma vez perguntei a Jurandir Freire, numa palestra que ele fez em Recife acerca da Ética (assim com maiúscula, porque Jurandir fala de assuntos assim com maiúscula), se a violência seria necessariamente anti-ética. Ele respondeu de pronto que absolutamente não! Respondeu que para ele, muitas vezes, a violência se revestia da chama sagrada do dever fazer. E finalizou comentando que aquilo que ele vinha de dizer não tinha qualquer relação com o massacre da Candelária, no Rio de Janeiro, ou com os golden boys candangos que haviam ateado fogo num índio-mendigo numa rua de Brasília. A violência cínica, assim como a ação cínica de qualquer matiz, não se regula por nenhum princípio que não seja o narcisismo nefasto de seu agente: atear fogo em Roma ou em gente desvalida por desfastio, saquear bens alheios porque a oportunidade está ao alcance da mão, e em seguida criticar quem saqueia simplesmente porque agora convém.
Discutir o que é certo comporta dificuldades em situações diferentes, mas é uma das coisas mais dignas da aventura humana, o caminho civilizatório por excelência. Não é grande quem é certinho: é grande quem tem princípios e os leva a sério, mesmo que, às vezes, pague caro por eles diante de seu tempo e de sua gente. Mas do outro lado da rua pode morar alguém grandioso e luminoso, mesmo fora do foco da mídia. Nenhum de nós precisa fazer voto de heroísmo: basta tentar de alguma forma permanecer inteiro (ou quase), porque torcer princípios tira pedaços, quem é sério sabe disso. E aí, cabe a cada um decidir como gerir as galinhas que surgirão vida afora.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Natal

24 de dezembro à noitinha, estação central Recife do pequenino sistema de metrô local. Linha Recife-Camaragibe. Sofreguidão de gente simples, lutando contra o relógio pra chegar em casa a tempo, pra ter direito a algo como uma noite de natal, presentes chineses nas sacolas. Vendedores esparsos tentam o mais discretamente possível vender pedrinhas de incenso para afastar os maus eflúvios, outros oferecem surrealisticamente pacotinhos de amendoim ao custo de um vale de transporte A, e aquela outra, de cara meio amarrada, oferece uns bonequinhos-chaveiro, bonequinhos de plástico caprichosamente vestidos com a indefectível roupinha vermelho e branca de Papai Noel. Na primeira estação do percuso o visível mal-estar da vendedora de bonequinhos aumenta. O mar de gente que acaba de embarcar a ignora completamente, mas ela insiste com sua vozinha monocórdia, seu cantochão de natal, a oferecer chaveirinhos de Papai Noel, dois por um real. Na estação seguinte por sorte vaga um lugar onde a vendedora dos chaveirinhos senta; bem a calhar, porque entraram os seguranças do metrô, e a dor aumentou, ela não iria mais se levantar nem oferecer os chaveirinhos até o destino final. Na estação Barro senta-se ao lado da vendedora um personagem um tanto peculiar, que eu já vi por estas bandas noutras vezes, nos últimos tempos. Ele aparenta cinquenta anos, veste-se como gente desleixada de trinta e carrega uma sacola às costas, sacola com a qual ele finge lidar com estudada indiferença (insegurança do Recife obriga), mas que qualquer um percebe conter algo que lhe é precioso. Eu os vejo um ao lado do outro, sentados numa véspera de Natal num ramal de metrô suburbano, e é como se estivesse diante da ilustração viva da solidão, do afastamento, do encapsulamento das grandes cidades. Eles jamais se encontrarão, apesar de que ele, com seu jeito de criança grande (provavelmente trata-se de um professor universitário), prescruta o vagão atentamente, como é seu hábito. Mas não enxerga a vendedora a seu lado, apesar de vê-la. Ela, por sua vez, já não enxerga mais ninguém, de tanta dor que sente. O único vínculo que os une é a urgência, a agonia de chegar em casa, a vontade de sair da transitoriedade precária de um vagão de metrô. Finalmente a estação Terminal Rodoviário; o professor, com sua mochila às costas e atrasado pela enésima vez, dispara rampa acima em direção ao guichê de vendas de passagens de seu ônibus. A vendedora caminha lentamente, chaveiros presos numa bolsa sambada, sacola de plástico azul noutra mão, e agora com a certeza que não chegará em casa a tempo. Não chegará em casa a tempo do seu arremedo de natal, não chegará em casa a tempo para alcançar o mercadinho aberto, não chegará em casa a tempo de pedir que alguém a ajude. Que a ajude a parir, porque chegou a hora. Eu, aqui do meu canto, fico pensando que se essa história tentava assumir ares de conto de natal, ficou mais parecida com um auto da paixão, com as estações do metrô fazendo as vezes de pontos de via sacra... E agora a vendedora num saguão de estação rodoviária que se esvazia velozmente, e a ponto de parir. Lugar mais infeliz para parir um filho, um saguão vazio de estação rodoviária em véspera de natal, sem ninguém a quem recorrer. Um lugar para onde ninguém vai, de onde ninguém vem: um lugar por onde se passa no rumo ou chegando de outros lugares. Mas pensando bem, foi tudo o que restou para o menino nascer numa véspera de natal: um não-lugar. Porque que outros lugares-lugares poderiam almejar recebê-lo?
Feliz natal a todos.