domingo, 13 de março de 2016

América Latina: qual a razão da pane?


Com esse título, o jornalista do Le Monde Renaud Lambert publicou reflexão de  grande qualidade sobre o momento de crise dos governos de esquerda na América Latina inteira, de Cuba até a Argentina, passando pela Venezuela, Bolívia e Brasil  (Amérique Latine, pourquoi la panne? – Le Monde Diplomatique, edição Janeiro-2016). Essa análise nos convém muito, a nós brasileiros, por três razões: primeiro, trata-se de uma visão de fora, útil nessa hora, em que se acirram aquelas tensões excessivamente atravessadas pelas emoções, que nascem e explodem nas redes familiares de WhatsApp, aqui no Facebook, nos contextos de trabalho, além dos ambientes mais clássicos de discussão, como as universidades e grande imprensa; segundo, porque traz elementos estruturais, inerentes aos demônios internos da própria esquerda, que ajudam a ampliar a discussão para além do contexto judicial-policial que tomou conta dos motes de todos os debates que estão postos – o que aliás é o fulcro da abordagem conservadora da grande imprensa no Brasil (a deliberada escolha da análise enquanto “caso de polícia”, com “xerifes” togados e pichulecos; aliás, Kim Kataguiri, golden boy dos movimentos pró-impeachment da presidenta Dilma, escreve hoje matéria de destaque na Folha de São Paulo com o grandiloquente título “Nossa geração sobreviveu”, em que assimila Lula a um dos vilões dos Power Rangers da infância dele... comovente... ); terceiro, porque traz um olhar que busca os invariantes à debacle atual da esquerda em toda a América Latina, resguardadas as especificidades de cada realidade nacional, mas sem perder de vista alguns pontos cruciais comuns e históricos – e quem não conhece bem a história, está condenado a repeti-la, como advertiu Edmund Burke (e Ernesto Che Guevara adotou como mote) há mais de 50 anos atrás. 
Minha opção pelo comentário, ao invés da tradução pura e simples, deveu-se a meu interesse em mudar o foco original de análise de Renaud Lambert da América Latina como um todo, para a análise do contexto brasileiro em primeiro plano, com a América Latina como pano de fundo. De toda forma, registro aqui o crédito dos pontos de análise ao autor do texto de referencia – é dele o mérito, é meu o risco.
Breve tour latino-americano proporcionado por Lambert em vários pontos de seu texto: (1) Um repórter uruguaio perguntou ao então presidente do Uruguai em final de mandato, José “Pepe” Mujica, por que razão seu governo não tinha conseguido levar mais longe as reformas que estavam em sua plataforma político-ideológica; com seu jeito despachado, Mujica respondeu, curto e grosso: “Porque as pessoas querem iPhones!”; (2) Nessa mesma linha, o embaixador da Venezuela na França,  Héctor Michel Mujica Ricardo, relata conversa com uma jovem mulher num bairro popular de Caracas, às vésperas da eleição presidencial venezuelana de 2013 – mulher que, segundo o embaixador, encarna uma das categorias sociais mais favorecidas pelas políticas redistributivas do  Chavismo; diz ela: “Antes, eu vivia na miséria. Foi graças a Chaves que eu consegui melhorar. Agora que não sou mais pobre, eu voto com a oposição.” (3) Bolívia, depoimento de um pequeno lavrador beneficiado pela política nacionalista e de valorização do pequeno agricultor lançada pelo presidente Evo Morales: “Agora que eu tenho dinheiro, eu posso tudo!” (4) Brasil: o cientista político Armando Boito, em análise acerca do enfraquecimento do MST, traz a seguinte explicação: os pequenos lavradores-sem terra que se beneficiam de uma gleba e que passam a ter alguma coisa a perder assumem imediatamente uma lógica e visão de vida cara a uma “sociedade de proprietários”, tão conservadora quanto aquela defendida pelos mais conservadores grandes proprietários da direita rural brasileira; isso evidencia que, ao lado do sucesso imediato de conseguir uma gleba via invasões, não se conseguiu mudar a mentalidade de todo aquele que recebe essa gleba, que doravante se vê como um “dono de terras”(mesmo que em miniatura...).
Para além dessas dinâmicas que se passam nas classes mais desfavorecidas, como é o caso da famosa “classe D de Lula” (aquela que ascende do lúpem-proletariado e consegue seus primeiros boletos, além de pela primeira vez enviar seus filhos à universidade pública), há que considerar importante processo no seio das classes médias. Agora há pouco, em 2015, nas vésperas da última eleição presidencial argentina, redes sociais consideradas progressistas divulgaram o documento “Os ciclos econômicos da Argentina”, que em meu entendimento são passíveis de apropriação, como ferramenta de reflexão, para a cena brasileira. Segundo a análise argentina, a história política daquele país estaria condenada a um ciclo vicioso com as quatro etapas seguintes:
[1] A direita assume o poder e destrói o poder de compra, as perspectivas e sonhos das classes médias.
[2] As classes médias pauperizadas ficam mais sensíveis às propostas progressistas, de resgate da cidadania, de reação aos vilões de direita que as pauperizaram,  passam a votar à esquerda, aliando-se aos bolsões do voto militante de esquerda, e conseguem eleger um governo de esquerda.
[3] Eleito, esse governo volta-se em primeira instância para os bolsões de pobreza, que ascendem socialmente em termos de consumo e inserção social, e beneficiam igualmente as classes superiores, tendo em vista o caráter reformista (e não revolucionário – o que de resto não é possível pela via de acesso ao poder através do canal democrático do voto); as oligarquias querem, contudo, recuperar sua hegemonia, pois sabem que governos de esquerda, mesmo na condição de aliados pela governabilidade, não são suficientemente  confiáveis.
[4] Inicia-se movimento político de reconquista do poder pelas oligarquias; as classes médias empoderadas identificam-se com o poder conservador de direita, e mesmo os “remediados” com up-grade recente para a classe D se tornam igualmente sensíveis ao discurso conservador. Esse dado estrutural pode ser circunstancialmente agravado por aspectos relacionados à corrupção no trato da governabilidade, e perspectiva de diminuição de direitos advindos da necessidade de reformas tributárias – notadamente aquelas ligadas à previdência e aposentadoria, por exemplo. A direita, nesse contexto, reconquista o poder, com ampla ajuda da classe média – fiel da balança que antes ajudou a eleger a esquerda, e que agora ajuda a eleger a direita, dando um tiro no pé representado pela retomada do ponto 1 do ciclo: as oligarquias, afinal, não têm compromisso com classes médias metidas a besta, mas estas, de forma sistemática e cíclica, demonstram amnésia histórica recorrente.
Estamos, nesse belo país, em pleno estágio 4, às vésperas do retorno ao estágio 1. Eu já vi esse filme antes, com gente de minha família marchando com Deus pela Pátria, Família, Tradição e um mínimo de perspectiva de comprar um carrinho melhor, depois todos orgulhosos de meter os peitos, junto com Fafá de Belém, e urrar pelas Diretas, depois eleger aquele que  antes chamavam de Sapo Barbudo, e agora lutar pelo aniquilamento completo de tudo que cheire a petismo, esquerda, lulas, dilmas e assemelhados, todos convencidos que fazem isso em prol da honra, da moral e dos bons costumes, esquecidos do atavismo maldito em que estão metidos desde sempre .
Como, justamente, quebrar esse ciclo atávico que condena não só o Brasil, mas TODA a América Latina, conforme argumenta e analisa Renaud Lambert? Como avançar efetivamente por vias que não explodam o Estado de Direito e dessa forma preservem a Democracia, e ao mesmo tempo permitam a construção de um estado efetivamente progressista? Claro está que a própria formulação da questão denuncia alguns pressupostos que me são caros – como a preservação de um status-quo republicano, democrático e plural que, para algumas perspectivas, JAMAIS permitiria passar do mero reformismo à revolução estrutural sem a qual nada poderia vir a quebrar o ciclo maldito acima. Prefiro as vicissitudes de erros e acertos desse velho e  inatingível ideal democrático às pretensões dos “centralismos democráticos” oriundos dos diktats de qualquer segmento ideológico do espectro – da extrema direita à extrema esquerda, passando pelos que juntam Deus, Diabo, política e governo.
Claro está que nem de longe consigo discernir resposta pronta e fechada para essa questão. Até porque problemas complexos não se resolvem com atos de fala que não estejam lastreados no dinamismo da ação política envolvendo indivíduos, coletivos, coletivos de coletivos, e História. Só isso. Mas formulá-la em termos menos simplórios me parece um primeiro avanço. Tudo o que tenho são vislumbres para navegação própria em tempos de mar revolto, de forma a ficar em paz com minha consciência e me poupar do risco de respostas singelas para questões idem (“Vai pra rua tal dia, em prol da luta contra a Corrupção, o Demônio e o Mal?” “Vai para a rua defender as verdadeiras causas populares?” Etc.).
Marx ensinou que uma forma produtiva de categorização dos protagonistas da cena social, econômica e histórica é aquela que os cinde em termos de proprietários dos meios de produção (o Capital em suas variadas formas), e proprietários da força de trabalho (aqueles que alugam esse insumo ao Capital). O interesse central dos primeiros é o lucro – o mais amplo possível; já o interesse central dos últimos é o salário – o mais “justo” possível (no limite inexorável imposto pelo princípio da mais valia).  Adoto essa categorização como minha e como absolutamente central como marco zero de uma série de análises. Usualmente essa cisão alimenta apelidos de famílias políticas, a mais popular delas sendo a clássica cisão nascida na Assembléia Francesa, a “direita” (“droite”) e “esquerda (“gauche”); digamos assim, numa perspectiva simplificada, que a direita costuma representar os interesses dos donos do Capital (que são naturalmente menos numerosos – donde outro qualificativo da direita – oligárquica (vide prefixo grego da palavra); e a esquerda, por sua vez, representaria grosso modo os interesses da massa trabalhadora locatária de sua força de trabalho. Há muito me convenci de duas coisas, um tanto anti-românticas: ser de direita ou de esquerda não pode ser facilmente assimilado a categorias como “bem” e “mal”, mas diz respeito a interesses inconciliáveis. Por outro lado, ter uma leitura do mundo em termos de esquerda e de direita não vem dado de presente em função da inserção do indivíduo num segmento abastado ou pobre da sociedade: ser pobre não é condição garantidora de ser de esquerda, conforme ilustram muito bem os depoimentos reproduzidos lá na abertura dessas reflexões. Ademais, o proprietário de uma singela facção de produção de vestuário no interior do nordeste brasileiro é tão proprietário quanto o dono (ou acionista principal) de uma fábrica de automóveis. Ambos terão uma relação estruturalmente semelhante com seus assalariados.
Direita e esquerda são portanto estruturalmente incompatíveis, o que não significa que não possam (e mesmo não devam) instituir alianças de governança. Pensemos numa fábrica “X” em um determinado contexto econômico: sua proteção e manutenção pode ser foco sinérgico de ações de um governo de aliança direita-esquerda, mesmo que no fundo cada pólo mire interesses diretos e até certo ponto (vide mais uma vez Marx) contraditórias: para os patrões, o lucro, para os trabalhadores, a manutenção dos postos de trabalho, e dos direitos que regem e balizam o estabelecimento do salário direto e vantagens associadas (como a aposentadoria, por exemplo). Se as alianças são possíveis e mesmo desejáveis, não é possível que a esquerda passe do estágio de governo com a direita para o estágio de governa para a esquerda (cf Lambert). Esse é um erro que a direita raramente comete, e que infelizmente ocorre seguidamente aos regimes de esquerda (o que caracterizaria o estágio três do ciclo proposto pelos argentinos, descrito acima). Lula advertia, em colóquio no Instituto Lula, proferido em 05/10/2015, que “cada vez que um partido de esquerda chega ao poder, ele se fragiliza.” É natural que ele se fragilize, porque ele tem diante de si uma tarefa tríplice: a) manter no curto e médio prazo a governabilidade, e no longo prazo o poder (uma longa saga de trocas de favores se insere aqui, desaguando na cena brasileira atual) ; b) manter um programa de esquerda, que vai muito além de proporcionar ao povo trabalhador meios para que cada um brinque de “ser bacana”, ser consumidor, jogar o mesmo jogo de sempre – conseguir mandar os filhos para a escola e para a saúde privadas, ao invés de algo mais além... ; c) manter a própria vida orgânica das entidades partidárias, cujos militantes de base agora disputam e perdem espaço para os companheiros que têm missões de governança (segundo Lambert, isso ocorreu de forma intensa tanto na Venezuela, quanto na Bolívia e no Brasil); a fragilização da militância, entenda-se, é fatal ao funcionamento de uma entidade política que se pretenda de esquerda, e essa fragilização costuma ser urdida historicamente pela própria dinâmica do partido de esquerda que sobe ao poder. É nesse contexto que os cientistas sociais argentinos Alana Moraes et Jean Tible (« ¿ Fin de fiesta en Brasil ? », Nueva Sociedad, no 259, Buenos Aires, septembre-octobre 2015) escrevem que hoje, no Brasil, « o PT se constitui muito mais em obstáculo [à uma ação política efetiva de esquerda] que em ferramenta.” Como disse Frei Beto ao se despedir do Planalto, de Lula e do engajamento na máquina de governo e poder, o PT havia se perdido de si mesmo ao subir a rampa do palácio presidencial. Nesse sentido, veja o leitor que a derrocada atual do PT, e, lamentavelmente, de uma proposta de esquerda para o Brasil, é alimentado e ampliado pela crônica policial dos intestinos do método de governança na qual o PT se lambuzou, mas o PT já havia urdido a crônica de sua morte anunciada muito antes disso – não só o PT, mas as organizações de esquerda em vários outros países que elegeram recentemente governos dessa tendência, e perdem as respectivas eleições uns após outros. O PT está hoje refém das ruas TAMBÉM pelos desmandos delituosos de seus quadros (de tesoureiros a presidentes – mas suspeito que deve ter sobrado um troco até para os faxineiros das sedes do partido – viva a inclusão social petista!). Mas o PT vai cair porque não soube estabelecer um projeto de governança que aliasse interesses variados do espectro direita-esquerda de interesses do Brasil, estabelecendo pontos de convergência e preservando papéis e compromissos históricos. Com isso o PT perdeu a classe média – esse grupo que vive sonhando num futuro sempre melhor para seus filhos – e vai perder a classe trabalhadora, quando os boletos começarem a ficar sem pagamento devido à perda dos empregos e respectivos  salários.  
Resta, por fim, aludir a como ficamos para os dias que virão. Poupo-me aqui do varejo das discussões sobre impeachment sim-não, renúncia sim-não, semipresidencialismo (a nova moda nas discussões), e por aí vai. Tudo o que diria é que é preciso quebrar o ciclo aludido pelos argentinos evitando a todo custo divulgar a ideia segundo a qual a saída, agora, deveria ser necessariamente conservadora – eleger a direita. Esse é um engodo cansativo, é por ele que se retoma o ciclo do rame-rame da história dessa sofrida América Latina. A proposta de esquerda continua de pé para todo aquele que se insira na condição de assalariado, mas também na condição de quem quer para o país um governo que tenha compromisso com uma maioria fragilizada, e não com uns poucos que assumem a posse dos meios de produção do país (a percentagem aliás desses protagonistas diminuiu bastante, em face da “política de esquerda” dos últimos três mandatos petistas). Não há perspectiva para a classe média fora da esquerda, pela simples razão desse segmento ser constituído, em sua maioria, por trabalhadores que possuem bens (até casas na praia e bons automóveis), mas não os meios de produção dos mesmos. Leões e cervos olham a savana a partir de pontos de vista sempre inconciliáveis, apesar de que,  tudo bem pesado, têm muitos interesses em comum (sempre a partir de perspectivas diversas).
A classe média brasileira está às vésperas de eleger um governo de direita no Brasil – posso sentir isso aqui nos posts de FaceBook e WhatsApp que explodem em meu smartphone enquanto escrevo. O velho ciclo tem grandes chances de retomar, até porque o PT está bastante ferido, e outros vetores de proposta de esquerda não têm musculatura para apanhar a bandeira e retomar a estrada. Freud escreveu, no contexto da economia psíquica e do trato dos sintomas neuróticos, que aquele que não entende seus sintomas está condenado a repeti-los. Sem drama e sem derrotismo, com determinação e paciência histórica, precisamos alimentar narrativas, argumentações e discussões que preservem a autocrítica das propostas chamadas “progressistas”, de esquerda – progressistas porque são as únicas compromissadas com o resgate dos mais frágeis, com a correção das injustiças do Darwinismo social que o Capitalismo é pródigo em gerar. Votar na direita, nesse contexto, permito-me dizer (apesar das pedradas que acarretará), é algo absolutamente pertinente para quem se alinha do lado da oligarquia dos proprietários; no caso dos demais, trata-se de equívoco que oscila entre a burrice e a ingenuidade, a depender de cada caso. Trabalhar com a direita, sim (eventualmente); trabalhar para a direita, jamais. Esse é o espírito que quero compartilhar e disseminar para os dias que virão. Como isso vai se traduzir em termos do concreto mais concreto – direções, partidos, candidaturas – vai depender de quem continuará solto ou preso, elegível ou inelegível, vinculado a qual sigla partidária, inserido em qual narrativa biográfica. Fundamental será a oferta e manutenção de uma proposta de esquerda – com todas as dificuldades de se conseguir uma, atualmente; sabendo-se que a alternativa à direita não é alternativa para muitos – grupo em que me insiro – é pura neurose política, para dizê-lo da forma suave dos psicólogos...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Quando a vida começa? Quando a vida termina?


Ano que vem, cinquenta, idade em que tem início a decadência do homem.”

Dráuzio Varela narra ter ouvido essa frase de um conhecido de priscas eras, desses que a gente encontra no meio do mundo, custa a reconhecer, luta para se desvencilhar, e ainda tem de aguentar pérolas de sabedoria e generosidade como essas. Tal narrativa vem na Parte 1 de seu mais recente livro, “Correr”, parte intitulada “A largada, ou a vida começa aos cinquenta”. Dráuzio comenta o quão impactante foi para ele ouvir aquela mesquinharia; e o quanto a frase tocou num daqueles pontos nevrálgicos da alma, um daqueles que só constatamos mesmo que temos depois que ele é devidamente cutucado. A frase o fez reagir energicamente – não para se contrapor ao pobre idiota que retornou às brumas do passado, mas para reagir à própria instância interna de auto-sabotagem com a qual havia convivido até então.
Sedentário, estressado, com padrão de  vida profissional daquele tipo para o qual o trabalho não cessa nunca – tantas são as tarefas a cumprir, tantas são as que não se consegue cumprir, invadindo as noites e inviabilizando o sono (conheço essa história de algum lugar). Dráuzio não explica muito bem, mas a forma que encontrou para reagir àquela sentença mesquinha foi...correr! Correr, entenda-se bem, não aquelas corridinhas michas uma vez na vida outra vez na morte – correr maratonas! 42km!
Por coincidência, cismei do juízo uns tempos atrás de começar a caminhar, depois trotar, para um dia correr um percurso todo. Nesse clima, ouvi referências ao livro de Dráuzio, e resolvi comprar o eBook para ler no avião, no percurso que me levou de Natal a Lyon (França), para jornada de trabalho intensa em janeiro de 2016. Minha expectativa era que iria ler esse livro no mesmo registro em que li, décadas atrás, o best-seller acerca do “Método Cooper”, lançado pelo médico norte-americano Kenneth Cooper. Lá no íntimo suspeitava que o livro de Dráuzio Varela seria mais interessante que as páginas monótonas do livro do Dr. Cooper – depois da 10a página, a lenga-lenga torna-se insuportável... Dráuzio, por sua vez, havia escrito anteriormente o “Estação Carandiru” – narrativa de excelente qualidade, livro que lhe pega, lhe dá uma surra e não lhe larga até você conseguir a alforria da última página. Meu íntimo estava certo...
Mal ultrapassei as primeiras páginas, percebi que o registro em que leria “Correr” estava mais próximo do registro em que li um livro que fez minha cabeça também décadas antes, “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”, do norte-americano Robert Pirsig. Sendo que dessa vez, a motocicleta seria eu mesmo – a velha carcaça de quase 60 mil km com que venho percorrendo a vida.
Após a frase mesquinha do conhecido no fatídico encontro, Dráuzio se (com)prometeu, cumpriu e virou maratonista. Começou vida nova e “carreira” de maratonista aos cinquenta anos, e hoje, aos setenta, continua lépido, fagueiro e maratonista militante – haja vista o texto que produziu. Nesse texto, mais do que a apologia (difícil de aturar depois de dois parágrafos) do “get physical”, Dráuzio lança digressões sobre o lado metafórico do correr, o quanto isso serve para chegar ao equilíbrio-zen para o qual Pirsig havia eleito o cuidado dos pistões da velha motocicleta como caminho da Iluminação e da Harmonia. Chama ainda a atenção para a questão crucial do quando começa, quando termina a vida. No fecho do livro comenta abertamente que, aos setenta anos, sabe que não lhe resta muito tempo pela frente – não que esteja doente, está ótimo, não faz uso continuado de nenhum medicamento (avis rara em sua geração), e continua treinando para correr suas duas maratonas anuais (às quais tem acesso garantido por estar sempre no limiar dos cinco segundos a menos que o tempo de corte de sua faixa etária, tempo esse registrado em corrida oficial anterior). Ao mesmo tempo que não tem ilusões sobre continuar correndo maratonas ad eterno, constata o quanto vive bem hoje, depois que a disciplina da preparação de cada maratona, e o esforço de corrê-las (competindo contra o próprio limite de esgotamento), fizeram dele um homem melhor.
Eu, de minha parte, não tenho absolutamente o interesse de correr uma maratona; minha ambição nesse domínio é muitíssimo mais humilde. Mas compartilho a motivação de me tornar um homem melhor. Um homem mais sereno, mais harmônico com seus próprios chakras, mais harmônico com a vida e com a vibração para além do chiqueirinho. Entendo perfeitamente a metáfora zen que é correr para Dráuzio Varela; entendo que haja tantas outras ao alcance; e entendo que convém a cada um achar a sua. Iniciar uma vida por dentro da vida – não no sentido de nenhuma mudança espetacular e espetaculosa – somente o avanço, mínimo que seja, em direção à Iluminação que é tão cara a alguns mestres, e tão distante da realidade de tantos que nos cercam, de nossos próprios desatinos e desequilíbrios. Tudo passa, tudo flui, inclusive a vida que é dado a cada um viver – salvo que é sempre possível buscar formas melhores de navegar nesse curso d’água que é a vida. Meio óbvio, mas de repente tão prenhe de sentido...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

APRENDIZAGENS: em honra aos 60 anos do Instituto Capibaribe


O que pretendo trazer aqui à consideração de vocês, nessa mesa, resulta da conversa interna entre um conceito central em minha vida de pesquisador que pensa e pesquisa sobre aprendizagem, o conceito vygotskiano de vivência, tradução dificultosa do termo russo perezhvanie,  e tudo que pude aprender sobre aprender, no tempo do Instituto Capibaribe. São vivências que quero compartilhar aqui, com vocês. Continuo uma conversa que iniciei já há 10 anos atrás, quando da edição do livro comemorativo dos 50 anos do IC, para o qual tive a honra de contribuir com depoimento escrito. Essa conversa interna me constituiu e constitui todo o tempo, e foi em função dessa conversa que dediquei meu trabalho inicial de tese, em meu Diploma de Estudos Aprofundados, na Universidade de Paris 5, a Raquel Correa de Crasto. Meu orientador, à época, perguntou, curioso quem era aquela pessoa; eu respondi, misterioso, que havia sido uma antecessora dele... Ele até hoje deve imaginar trata-se de alguma acadêmica brasileira, em algum mestrado prévio... Mal sabia que a dimensão dessa antecessora havia sido muitíssimo maior! A lembrança e homenagem a Dona Raquel não havia sido por acaso; ao iniciar o doutorado, me senti perigosamente ameaçado por um contexto que não conhecia, uma língua que não era a minha, um desafio que parecia enorme; naquela ocasião, mesmo as máquinas de lavar roupa de aluguel, na residência universitária onde residi na chegada, pareciam dispositivos inextricáveis e complicadíssimos, que me faziam pensar, desolado: “alguém que não consegue sequer lavar as próprias roupas sujas numa porcaria de uma máquina de lavar, como poderá fazer um doutorado, ainda mais em língua francesa?” Vivência que já era minha conhecida:  anos atrás, na chegada ao Capibaribe, vindo de experiência escolar absolutamente desastrosa, analfabeto quando todos já haviam aprendido a ler, estrangeiro num mundo adulto distante, marginal num mundo infantil hostil, aquela escola da Avenida Malaquias parecia mais uma comarca inatingível de um país de frustração e desamparo que se constituía para mim. Na chegada à Sorbonne, uma secretária cinza me havia advertido que, naquela universidade, não se faziam favores a estrangeiros;  na chegada ao IC,  os coleguinhas me saudaram com a advertência de que naquela escola todos deveriam fazer primeira comunhão, mas analfabetos estavam fora – destinados ao inferno por conta de sua incompetência ignara e pecadora.  Em Paris, logo após o choque das primeiras experiências assustadoras, uma voz tranquila enraizada em vivências do passado sussurrou ao meu ouvido que o desafio, ali, como das outras vezes, seria sobretudo encontrar o meu próprio caminho para aquela trilha: nem se submeter aos projetos de outros, nem sucumbir ao vazio do vácuo de qualquer projeto.  Como na Avenida Malaquias, onde a Dona da Voz sussurrou ao meu ouvido o convite inesperado para acompanhá-la na preparação do jornalzinho da escola – jornalzinho que tinha um patrono - São Domingos Sávio (discípulo de São João Bosco) – sobre quem, um dia, eu poderia ler, quando pudesse ler, e se quisesse saber; enquanto isso, iríamos produzir textos escritos... em deliciosos mimeógrafos a álcool. Assim se iniciou minha trajetória de apego ao texto escrito no Instituto Capibaribe: da forma como pude iniciá-la, como auxiliar de produção de texto mimeografado cujo significado cifrado desconhecia, mas em meio à magia de se apaixonar por um jornalzinho escolar mesmo antes de entender uma mísera linha do que ali se escrevia. Em Paris, exatos 365 dias após a chegada assustadora, texto de exame pronto, caminho pessoal iniciado, dedicatória a Raquel inserida, voltei aos 365 dias após a chegada ao IC, então na condição de diretor de edição do jornalzinho, e sob a proteção de Domingos Sávio e de Dona Raquel. O quão bem produzia e consumia texto, não sabia e hoje não me recordo: tudo que recordo foi o quanto foi tardio – último dos meninos de minha turma a se alfabetizar, ritmo próprio nesse processo, analfabeto inclusive durante a primeira comunhão – Dona Raquel me havia tranquilizado, rindo à solta da tentativa de bullying dos coleguinhas que me haviam garantido que o padre iria me pedir para abrir o missal à página x, e ler o que estava lá – se não lesse, nada de óstia e nem de primeira comunhão! Conforme Dona Raquel havia assegurado, todos comungaram, apesar de só um menino magrinho, dentre todos, ter comungado feliz, e analfabeto. A defesa do texto de exame em Paris, que os coleguinhas haviam preconizado como de difícil sucesso mesmo para os nativos  - melhor pedir logo para fazer o exame ao final do segundo ano – me parecia possível, porque havia aprendido antes que um caminho era sempre possível de trilhar quando o caminho era o seu; e que aquela óstia de primeira comunhão doutoral estaria sim a meu alcance, primeiro porque eu a queria muito, e segundo porque eu iria encarar aquela empreitada do meu jeito, e sob a égide de Domingos Sávio e Raquel. Meu privilégio...
Vivência, para Lev Vygotski, diz respeito à experiência acumulada do vivido, peculiar a cada um e necessariamente atravessada por acervo de emoções e afetos. Vivência, para mim, é a unidade de análise da psicologia, qualquer que seja o adjetivo que a acompanha: do desenvolvimento, do trabalho, da aprendizagem. Vivência diz respeito à integração biográfica entre passado, presente e futuro, e à integração entre racionalidade e afetividade. Aprender é fundamental, mas aprender, como vivência, traz sempre em si, embutida, a meta-experiência de aprender a aprender. Tal experiência tem como cerne a competência, discutida pelo Círculo Bakhtin em termos de estilização, no sentido de construir um caminho próprio. Aprendi com Raquel o apego afetuoso ao texto escrito através do enfeitiçamento da pequena oficina na labuta do mimeógrafo a álcool – em meio à tranquilidade, ao respeito, ao carinho por um garotinho desvalido e em risco – fora dos padrões, mas pronto a se apegar – à escola, ao aprender, ao assumir o direito de fazer valer sua diferença, viver com ela, e não apesar dela. Vygotski, ao refletir sobre crianças diferentes, ou “feitas de outra maneira” – portanto caracterizadas por um defectus – donde a Defectologia russa, chama a atenção para o fato de que elas são crianças tão humanas quanto qualquer outra, apesar de portarem peculiaridades como poucas, e olhando de perto, como nenhuma outra. Raquel sabia “querer bem a todos, querendo o bem de todos”(pg. 25 dos Cinquenta Anos Depois), e sobretudo “respeitar o estilo e o arranjo pessoal” (pg. 27), convicta da importância dessa postura para formar pessoas integrais, ao invés de formatar ovelhas – eventualmente enviando-as direto para o abatedouro. Escrevi em meu texto de 2005 que o Capibaribe sempre soube acolher patinhos feios, e não necessariamente para transformá-los em cisnes (apesar de alguns, efetivamente, terem desenvolvido belas plumagens), mas para oferecer a cada um deles um laguinho onde fosse possível nadar, onde fosse possível se afeiçoar a nadar: eis aí o cerne das vivências de quem passou por essa escola tão pequena em valor material, tão especial na escala inefável que avalia as vivências.
Sempre me assombrou, pela vida afora, a constatação retrospectiva de uma certa familiaridade vivencial de Dona Raquel, com construtos teóricos do estado da arte da teorização em psicologia da aprendizagem e do desenvolvimento, minha área de formação doutoral. De Jean Piaget a Emilia Ferreiro, passando por Anita Paes Barreto e Paulo Freire, de Lev Vygotski a Jerome Bruner, passando por Mikhail Bakhtin e seu círculo de colaboradores. Mais de uma vez conversei sobre esse meu assombro com o prof Paulo Rosas, um dos meus formadores na Psicologia UFPE, a quem aproveito para igualmente reverenciar aqui. Recentemente, em evento acadêmico em Paris, um dos conferencistas, Pablo Del Rio,  disse uma frase que imediatamente me trouxe Dona Raquel; ele disse: “há pessoas que falam como livros, há livros que falam como pessoas, e há pessoas que trazem a sabedoria dos livros em seu discurso e em sua prática profissional, mesmo que não citem os livros, e mesmo que, misteriosamente, nem sequer os tenham lido.” Lembraram de alguém?
Para além da ênfase absolutamente contemporânea na integração dos aspectos cognitivos e afetivos nos contextos de ensino e aprendizagem (tema aliás de uma fala que ofereci ao professorado do Instituto Capibaribe em 2004, a convite da direção pedagógica), numa época em que muitas correntes de peso da psicologia e da pedagogia tratavam esses aspectos como separáveis, e da ênfase no respeito às peculiaridades dos alunos, não para lhes conceder privilégios especiais na comunidade-escola, mas lhes respeitar direitos inalienáveis, Dona Raquel trouxe igualmente contribuições específicas na lide com os conteúdos escolares específicos – isso com que até hoje lutamos, ao propor, primeiro, os Parâmetros Curriculares Nacionais, e agora a Base Nacional Comum Curricular. O que digo sobre isso, digo não com base na leitura de textos de orientação de Raquel, apesar de ter visitado os bastidores desse mundo em que fui aluno, ao ler as anotações do 50 Anos Depois... Digo com base, mais uma vez, na vivência de quem passou quase um ano sacrificando os domingos de praia para ir à casa humilde e acolhedora de Dona Raquel, no bairro de Campo Grande, para aulas suplementares de Português e Matemática, em preparação para um futuro chamado Ginásio de Aplicação (mais histórias, mais vivências...). Mais uma vez, como tantas vezes, a avaliação pessoal era de completa impotência para conseguir acesso àquele colégio de nerds – logo eu, até bom em Português, mas definitivamente problemático no domínio das Matemáticas – como ter essa pretensão? Raquel acolheu essa postura com um ponche de laranja – lembram que em nossa infância tomávamos ponche? Ponche de laranja com bolacha cream-cracker – o lanche que acompanhou, em sua simplicidade franciscana, todo aquele período de formação suplementar. Ponche e aquele jeito Raquel de ser – la force tranquille, como diriam os franceses. Aquela certeza de que, mais uma vez, haveríamos de construir um caminho, o meu caminho. Certa vez, numa das jornadas dominicais de Campo Grande, diante de uma expressão numérica aterradora (chamávamos de “carroção”), com barra fracionária, parênteses, chaves e colchetes e tudo o mais que se pudesse imaginar, e que eu deveria simplificar, olhei desamparado para Dona Raquel, e aí ela me segredou uma fórmula que me acompanhou muitos anos depois, em minhas pesquisas já no domínio da resolução de problemas e da passagem da aritmética à álgebra: “esses problemas são como papa, a gente começa comendo pelas bordas...” Mais tarde ouvi o russo naturalizado americano George Polya discorrer em “How to Solve It” sobre a sofisticação da estratégia do “means and ends analysis” , que vem a ser justamente comer um problema complexo (matemático, econômico, existencial...) pelas bordas – o que tem a estratégica característica de não garantir que o problema seja resolvido de uma tacada – ele lhe leva a um problema cada vez menor, somente isso; e de menor em menor, ele fica do meu tamanho – Eureka!
O que cada aluno dessa escola toda vida lembrará, com base nas vivências fundadoras de cada um no Instituto Capibaribe, é que aprender é bom, é prazeroso e é autoral; aprender é trazer para si e reinventar, aprender é receber os tesouros dos que nos precederam, e dar a esses tesouros o valor adicional do estilo pessoal; valor adicional que não tem necessariamente medida clara e objetiva, na direção do desempenho, do achievement tão caro a certas perspectivas anglófonas de educação; já na condição de pai de aluno do IC, quantas e quantas vezes ouvi em nossas reuniões de pais e mestres a pergunta angustiada de outros pais: “aqui nessa escola meu filho até está indo até bem, ele gosta da escola e tudo, mas ele vai conseguir se dar bem lá fora, noutras escolas, quando sair daqui? Ele estará equipado para a  vida real, fora desse jardim protegido?” O IC gerou um paradigma em Recife, e mesmo fora de Recife: meus filhos pequenos frequentam em Natal, onde hoje residimos, uma escola que é a “cara” do IC, e que atende pelo sugestivo nome de “Casa Escola” – sentiram o clima? Pois muito bem, a pergunta permanece, tantos anos depois... Os pais vêem os filhos felizes na escola, lembram do tanto de porrada que levaram em suas experiências escolares, e se perguntam, fiéis à tradição judaico-cristã de progresso via penitência: “é possível atingir o bom desempenho sem sofrência escolar? ”  Eu, do meu canto, pela enésima vez respondo que basta dar uma olhadinha nos egressos... Sem grandes circunlóquios sobre o valor da perspectiva construtivista, etc e tal. Olhem os egressos...
O que os egressos do Instituto Capibaribe, hoje com filhos, netos, bisnetos, e vamos que vamos, o que esses egressos toda vida lembrarão é de uma etapa da vida em que se consolidaram como pessoas. Aqueles dentre os egressos que se encaminharam para as lides pedagógicas levarão um acervo de vivências focadas no rigor, na seriedade profissional do ser mestre, no estudo constante, no carinho imenso ao ofício e ao educando. E mesmo aqueles que, mais prosaicamente, admitam não ter histórias muito especiais a contar, esses também se juntarão a todos os demais, posto que todos têm seu lugar nessa foto, todos tiveram o privilégio de compartilhar a vivência de uma escola que para sempre em nossas almas ficará.
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ADENDO acrescentado após ver o vídeo produzido para a apresentação, como parte do programa, na emocionante cerimônia do Teatro Beberibe, em que uma das depoentes, ex-aluna do IC, lembrava um dos motes da escola: “Aqui a gente pode tudo...”. Isso me trouxe mais uma vivência, que compartilho abaixo.
Clinica Pinel, véspera de Natal de 1980. Eu no plantão, co-responsável pela Unidade Freud de mais ou menos 50 pacientes do sexo masculino,  a maior parte psicóticos, e com baixa dosagem média de medicação, como era a tradição na clínica. Por volta das 21hs sou chamado à unidade, um paciente que me ver.
Eu: Olá, gostaria de falar comigo?
Ele: Sim, gostaria. Aqui nessa clínica vocês dizem que a gente tem ampla liberdade, mas a gente não pode nada.
Eu: E o que você gostaria muito nesse momento?
Ele: O que gostaria muito, nem vou falar, pois sei que não haveria a menor possibilidade de ser atendido. Vou falar somente o que gostaria, assim, de boa.
Eu: Diga!
Ele: Gostaria de que hoje a regra do silêncio das 22hs fosse suspensa, e que a gente tivesse direito a um recital de música sacra com o primeiro violino da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.
Eu: Vamos consultar os demais pacientes – se eles concordarem, eu vou autorizar. Quanto ao recital... Como fazer para conseguir o violinista?
Ele: Fácil, sou eu.
Eu: [pensamento paralelo: acionar princípio técnico de como lidar com delírios; não escarnecer, não confrontar – aceitar sem se associar ao delírio, etc...] – Vamos ver... Primeiro vamos tratar da aceitação de sua proposta pelos demais pacientes... [Ganhar tempo...]
20 minutos depois, pacientes todos de acordo, volto à unidade para tratar do encaminhamento da produção delirante, e ao comunicar ao meu interlocutor que a primeira parte da demanda estava contemplada, ele vai a seu armário, retira um violino, senta-se com todos os pacientes ao redor, e inicia uma belíssima sonata de Natal, em meio a muita emoção. Nem precisei conferir depois (mas confesso que o fiz) que ele era, efetivamente, o primeiro-violino da Sinfônica de Porto Alegre.
Ao final da noitada, todos se recolhendo, ele me diz: O senhor sabe, nessa vida, em canto nenhum a gente pode tudo; mas a gente pode muito quando há boa vontade e boa conversa!
Era sempre assim no Instituto Capibaribe: a gente de fato não podia tudo, mas a gente conversava tudo e sempre - e findava podendo muito!

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Redução da maioridade penal: acerca do castigo como vingança


A questão da redução da maioridade penal é um desses casos exemplares e históricos da sinergia perniciosa entre ignorância e preconceito. Alguns aspectos precisam ser minimamente considerados no trato dessa questão.
Para começo de conversa, é preciso admitir que as condições de aprisionamento de qualquer animal não-humano em zoológicos, biotérios e assemelhados são, no Brasil, infinitamente melhores que as condições de aprisionamento no sistema brasileiro de prisões. Desde que passei a participar, como pesquisador, do Observatório Nacional do Sistema Prisional (https://www.ufmg.br/ead/onasp/index.html ), não paro de me estarrecer com o que fazemos com a população carcerária deste país - a terceira maior do mundo, em números absolutos ( cf. http://tinyurl.com/p354nar ). Os pouquíssimos dados de confiança de que dispomos apontam que a "ressocialização"/ "recuperação" dos detentos egressos dessas masmorras é pífio. Mas desconfio que isso não é fundamental para nossa sociedade, pois de fato o que se deseja ao internar um preso é fundamentalmente sua punição, mesmo sua trituração como ser humano. A prisão é o lugar da vingança social - Lei de Talião com juros. Não serão poucos aqueles que, ao ler estas mal-traçadas, reagirão à la Malafaia com interpelações do tipo "quero ver quando matarem um filho seu e o arrastarem pelo asfalto se você manterá essa conversinha de bom-moço". A questão não passa pela negação da dor alucinante do pai ou mãe que passa por uma tragédia dessas. A questão é que o desejo de vingança em relação ao agente do crime hediondo não bate com as diretrizes histórico-institucionais no Brasil e em muitos países ocidentais, para os quais quem comete delito e é considerado culpado incorre em pena, que tem a dupla função de punição social e recuperação: em tese, quem cumpriu pena deveria poder voltar ao convívio social plenamente re-habilitado em sua cidadania. Em tese, quem comete delito não deixa de ser gente (teses devidamente dissecadas criticamente por Michel Foucault, em "Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão"  - disponível em http://tinyurl.com/o7wp8ej ). No Brasil (e vamos ficar no Brasil), o sistema prisional, como sistema, não recupera ninguém - ele mói carne e provê vingança social, alimenta o crime organizado (nas prisões e fora delas), nada mais do que isso. Esse texto poderia terminar aqui, como peça argumentativa contrária à redução da maioridade penal. Mas poderia avançar mais um pouco, no terreno especulativo do "e se o sistema prisional fosse adequado" - o que remete à questão associada de "alguém de 16 anos sabe o que faz - tanto é que vota para presidente da república, etc.". Três questões para pensar, aqui: 1. O binômio histórico da reparação do crime e da oferta de condições de ressocialização ao delinquente continua de pé? Ou o simples fato de que muitos delinquentes brasileiros não são sequer socializados (então como poderiam ser "re" socializados?) invalidaria essa premissa? 2. Se consideramos como incontornável (e TODOS consideramos) a existência de um sistema social de justiça para lidar com delitos, esse sistema deveria ser necessariamente fundado no cerceamento da liberdade - na pena de aprisionamento? (Sugestão de leitura aqui: Sobre a reabilitação de criminosos: há alternativa... à pena? Márcia Miranda, Editora Letra Capital). 3. Se considerarmos que um indivíduo de 16, 15, 14 ou até 12 anos de idade tem condições sócio-cognitivas de lidar com a noção de regra, delito e castigo, a punição adequada em caso de delito cometido por parte desses jovens deveria ser a restrição de liberdade - seja ela em padrão carcerário usual ou com adaptações-atenuantes (como "cela especial", "cela em instituição especial", etc)?
Alguns elementos de resposta às indagações acima: o sistema prisional brasileiro, como bem reconheceu meses atrás o ministro da justiça José  Eduardo Cardozo ("Se fosse para cumprir muitos anos na prisão, em alguns dos nossos presídios, eu preferiria morrer" – cf. http://tinyurl.com/aafv5pd ), não é presentemente lugar para recuperar ninguém; por esse aspecto, rebaixar a maioridade penal para enviar detentos jovens a partir dos 16 anos para essas jaulas funciona fundamentalmente como vingança social – inclusive e muito especialmente para os chamados crimes hediondos. Vamos combinar isso. Se é de vingança que se trata, então que se diga isso com todas as letras, e vamos lá. Mas SE estivéssemos no mundo virtual de um sistema prisional minimamente decente, e fundado na pena do cerceamento de liberdade, ainda assim o envio de jovens para o aprisionamento não seria o caminho mais adequado para lidar com o delito e com o delinquente. E isso seria tão mais pertinente quanto pertinente é pensar que essa constatação não é válida somente para os jovens: é válida para qualquer delinquente, tenha ele a idade que tiver. E aqui chegamos ao ponto central nessa discussão: a prisão, enquanto pena de restrição da liberdade em cárcere, deveria ser prevista como UMA opção no  bojo do sistema de justiça, e não como A opção dominante e modal, em detrimento de outras alternativas eventualmente previstas nos códigos penais – como é o caso do nosso. Isso é válido para quaisquer delitos, e para delinquentes em qualquer faixa etária. A forma de lidar com um jovem de 16 anos que mata um médico respeitado e produtivo, que passeia em sua bicicleta pelas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, para roubar-lhe a bicicleta e o tênis, é uma questão de sociedade inescapável (haverá ainda muitos e muitos outros médicos a chorar, infelizmente).  Pelo que tenho conseguido ler até aqui em psicologia, educação e domínios afins, não há resposta fácil e pronta para essa questão – com ressalva da minha própria ignorância. Mas de um ponto estou certo e convicto: NÃO é pelo rebaixamento da maioridade penal, inculpação e aprisionamento que se vai lidar com esse delito e com esse delinquente – não como forma efetiva de punir e recuperar.
Olhando diretamente em seus olhos: caso você seja desses que decididamente não contém a revolta em relação a determinados delitos e delinquentes (o que é compreensível, psicologicamente), sejam eles maiores ou menores de idade, assuma de uma vez sua recomendação de pena capital para esses delitos, ao invés da proposta de aniquilamento paulatino da dignidade desses delinquentes nas jaulas do sistema prisional brasileiro (exceto algumas Papudas aqui e ali, cujos detentos “ordinários” serão sempre gratos ao companheiro José Dirceu).
Para além do fuzilamento dos delinquentes – institucional ou não  (providência corrente nas periferias desse país), e do encarceramento (seja ele em condições humanas ou sub-humanas), cabe-nos exercitar o esforço e a responsabilidade social de construir alternativas que respeitem a juventude e a cidadania brasileiras, e preservem o que nos resta de ideal civilizatório de sociedade. Que o Congresso Nacional se incorpore a esse esforço, ao invés de cerrar fileiras com o atraso, o preconceito, a preguiça mental e a barbárie.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Carta aberta à Presidenta Dilma Rousseff


Senhora presidenta, quem lhe fala e de onde lhe fala? Sou um docente do ensino superior e gestor público, nordestino, sem filiação partidária mas (me avalio como) situado à esquerda no espectro político-ideológico, e seu eleitor na ultima eleição presidencial. Isso deve bastar para minimamente contextualizar minha mensagem - e mensagens têm sempre um conteúdo explicito e um contexto de enquadre, sem o que não se pode minimamente lidar com elas.
A senhora vive hoje um momento delicado dessa sua segunda gestão (da qual sou fiador, junto com os demais brasileiros que a elegeram), e no meu entendimento a crise atual tem três frentes, que cabe à senhora atacar, e já.  A senhora se comprometeu com uma gestão de esquerda fundada no ideário do PT, fundada em sua biografia pessoal (largamente explorada na campanha), e compromissada com ênfases de gestão decorrentes dos dois pilares básicos acima citados - a transparência e moralidade no trato com a coisa publica (também largamente explorada na campanha) e a defesa intransigente dos avanços que a gestão PT acumulou anteriormente no domínio da inclusão social e aperfeiçoamento das condições de cidadania do povo como um todo, mas muito especialmente da parcela mais desvalida desse povo. A senhora se comprometeu, presidenta, com um governo de esquerda, e foi na consideração desse compromisso que lhe demos credito e em função dele a elegemos.
Todos nós, brasileiros de boa fé, queremos lutar em prol de uma economia sólida para esse pais, mas a construção de uma economia sólida não tem na abordagem liberal conservadora sua única alternativa. O chamado Custo Brasil não tem nos salários, na promoção e gestão da saúde publica e da educação e no dispêndio com pesquisa, inovação e reorganização do Estado seus principais vilões. A ênfase no setor produtivo nacional, com revisão dos critérios de concessão de incentivos na direção do compromisso com a nação, em detrimento do acordinho paroquial de ocasião, tem peso muito mais estruturante do que o apagar de incêndio do aumento dos juros (que freiam as cegas consumo e produção - notadamente da microempresa). Uma política clara de gestão da matriz energética do pais é outro ponto fundamental, que dê sentido as acorres do agora, para lidar com a crise aguda da escassez de agua e dos apagões, e a ações do depois, rumo a um patamar mais adequado para a gestão do nosso perfil (invejável) de recursos energéticos. Finalmente, cabe mencionar a gestão do problema estrutural representado pela corrupção, filha de uma política menor, de uma estrutura partidária mal-ajambrada e vocacionada para a mediocridade e para a contravenção, e da falta de coragem e vontade politica que uma gestão de esquerda (a sua!) em tese estaria comprometida a rever.
Não nasci ontem, presidenta,  e sei que no mundo real de uma democracia republicana representativa os acordos políticos devem ser feitos, mas também sei que a cúpula da gestão publica brasileira tem historicamente tratado a reforma política com dubiedade, hipocrisia e irresponsabilidade; no calor do movimento das ruas em Junho de 2013, assim como na última campanha, até plebiscito se prometeu para o trato desse tema estruturador - de novo escorregando para a vala dos assuntos importantes mas não urgentes.
A senhora preside uma nação e tem vinculo com um partido, mas veja bem, a ordem de prioridade é essa, sugerida pela construção da frase. O Estado não pertence ao PT, e nem a nenhum outro partido-aliado de ocasião. Ou bem se restabelece a confiança do grosso dos cidadãos (a começar pelos seus eleitores, mas não somente eles) na gestão publica, ou a senhora vai perder o jogo - e junto com a senhora, outros entes nobres irão igualmente para o buraco, como por exemplo a própria noção de gestão da coisa publica. Falemos então diretamente do tópico do momento: a Petrobras e as denuncias de corrupção recentes e a ela ligadas. A melhoria da governança da Petrobras não está necessariamente ligada a perda do voto maioritário do Estado, representado pelo governo vigente. A Petrobras é uma empresa de um tal valor estratégico que deve persistir ligada, majoritariamente, ao Estado Brasileiro. Mas isso não quer dizer que a Petrobras pertença ao partido ou aliança de partidos do governo no poder! A proteção da empresa, para o bem do Brasil, passa por uma melhor delimitação do setor técnico e da pesquisa e prospecção, pelo setor da gestão de negócios (a Petrobras tem ações nos mercados de valores do mundo afora), e pela responsabilidade social e politica da empresa na estruturação do Brasil (vide discussão dos royalties a serem pagos aos estados produtores de petróleo da federação, bem como destinação político-administrativa dos royalties do Pre-Sal). A organização atual da Petrobras é ruim, e tem papel importante na explicação da eclosão dos escândalos atuais, sem desconsideração dos deslizes éticos e falta de vergonha na cara de uns e de outros - cuja devida nomeação, espera-se, prossiga de forma célere, eficaz, completa e inexorável. A reorganização da govenança da Petrobras pode e deve ser feita à esquerda, presidenta, e de forma eficaz do ponto de vista meramente financeiro-administrativo. É um mito a combater essa tese de que onde há ideário de esquerda, há junto a ineficácia de gestão; o ideário de esquerda tem relação com os compromissos de destinação dos lucros da empresa, e não com sua dilapidação; quebrar a Petrobras é crime de lesa-pátria, mantê-la forte é obrigação técnica e política de seus gestores - obrigação para com os acionistas minoritários, e assim como para o acionista maioritário, que é o Estado brasileiro. Por fim, a Petrobras é somente um "case" dentre tantos outros (gestão da matriz energética e politica de estado para a gestão do PIB, por exemplo). Cabe aqui e em qualquer caso ter em mente que a ênfase não é a manutenção de estruturas partidárias de poder (o que é relevante, mas não pode ser o dado primário), e sim o compromisso com a nação brasileira enquadrado por uma visão de mundo de esquerda.
Presidenta, mais vale perder o jogo lutando uma boa luta do que perdê-lo nas cordas, apenas adiando, golpe após golpe, o nocaute final. Não a elegemos para a gestão apaga-incêndios na pequenez do dia-a-dia, na conformidade com esse status quo medíocre, na zona cinza de atitudes e decisões em que qualquer visibilidade do ideário de esquerda some completamente. Honre seus compromissos de base e conte conosco - aqueles que lhe deram crédito e a elegeram. Persista nessa posição defensiva e pequena e se prepare para a solidão - eu, pelo menos, não estarei a seu lado simplesmente por conta de carteirinhas de partido - repito o que disse no inicio, essas carteirinhas, eu não as tenho e provavelmente jamais as terei. Não lhe dirijo o dedo acusador de "estelionato eleitoral", como os eleitores do candidato perdedor não param de vociferar sempre que podem e por qualquer meio. Dirijo-lhe o apelo -  enquanto é tempo - no sentido de que não perca de vista seu compromisso com uma gestão eficaz, corajosa, competente e de esquerda. Não deixe que se registre, em sua biografia, o ônus da indecisão (que sua campanha tão brutalmente denunciou na candidata Marina Silva), da pouca nitidez de critérios além dos conselhos de seu travesseiro; a senhora NÃO está sozinha, a não ser que decida por isso. Evite o pior tipo de arrependimento - aquele, mencionado pelos poetas e cancioneiros, referente ao que NÃO se fez.
Senhora presidenta faca valer seu epíteto de campanha (junto com todo o resto), seja valente, vire à esquerda, mostre garra e serviço, e conte comigo!
Seu eleitor, a seu lado,
Jorge Falcão